Revista de História da Biblioteca Nacional destaca cachaça de Salinas

Por Roberto Carlos Morais Santiago
A Revista de História da Biblioteca Nacional (edição nº. 55, abril 2010) traz interessante reportagem sobre o Museu da Cachaça de Salinas com inauguração prevista para o segundo semestre de 2010.
Segundo a reportagem (clique na imagem para ver a reportagem na íntegra) a “cachaça de Salinas é uma das principais bases econômicas do município, e em breve será também combustível para o desenvolvimento turístico, socioeconômico e cultural da região“. O museu está sendo construído com recurso da ordem de 5 milhões de reais do governo mineiro (Secretaria de Estado de Cultura) em parceria com a Prefeitura de Salinas.
Acredita-se que o museu consolidará definitivamente a cadeia produtiva do agronegócio da cachaça de Salinas, bem como a otimização do turismo. Atualmente, o município é responsável por cerca de um terço de ICMS recolhido ao erário mineiro pelos produtores de Salinas. São mais de 50 marcas, algumas de renome nacional e internacional. A produção anual atinge mais de 4 milhões de litros.

Cachaça de Salinas é destaque na primeira edição da revista Raiz

Foto Izan Petterle.

A primeira edição da revista RAIZ (edição nº 01, novembro 2005) traz interessante reportagem sobre a cachaça de Salinas. A reportagem é do jornalista Afonso Capelas Jr. Belo texto. Vale uma leitura!

APRECIE A MODERAÇÃO
Por Afonso Capelas Jr.
Foto de Izan Petterle
Uma visita a Salinas, a cidade que produz a melhor cachaça do mundo, utilizando o mesmo processo há mais de 50 anos, sem pressa e sem se render ao lucro fácil.
“MUITA PACIÊNCIA, NENHUMA USURA.” Em vida, o fazendeiro Anísio Santiago tinha prazer em repetir à exaustão o lema que considerava ser o verdadeiro responsável pelo espírito da cachaça artesanal que produziu desde 1943, em Salinas, cidade do Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais. Era assim, sem pressa nem pretensão de enriquecer, que o velho Anísio destilava seu precioso líquido, a aguardente Havana. Quem já teve o privilégio de molhar a boca com esse néctar dos deuses sabe que não é uma bebida qualquer. Cada gole da Havana corresponde a sorver uma fina tradição regional que envolve desde o plantio da cana-de-açúcar, o corte manual, seu paciente transporte em rústicos carros de boi, até o engarrafamento da bebida.
É dessa forma que Salinas mantém a tradição das melhores cachaças artesanais do mundo, elaboradas com a boa e velha calma mineira.
Da região de Salinas provêm cerca de 50 marcas, apreciadas em vários países. Canarinha, Asa Branca, Erva-Doce, Seleta, Saliboa, Boazinha, Beija-Flor, Cubana. Mas apesar da grande quantidade de nomes, a qualidade se mantém com produções mínimas. Dos quase 2 bilhões de litros que o Brasil produz todos os anos, apenas 2,6 milhões saem das pequenas destilarias de Salinas.
Anísio Santiago faleceu no final de 2002, aos 91 anos, um ano depois de ver-se obrigado a trocar o nome de sua cachaça por causa de uma pendenga judicial com a empresa francesa Pernod Ricard, proprietária do rum Havana Club. A garrafa da bebida passou a receber o rótulo Anísio Santiago, sem alterar em nada seu conteúdo. No dia 28 de outubro último, no entanto, os filhos do fazendeiro ganharam na Justiça o direito de voltar a usar o rótulo Havana – uma vitória que faz jus ao esmero com que administram o nobre legado. “É um compromisso com o nosso pai e com nossos consumidores cativos”, garante o filho Osvaldo Santiago.
O mestre cachaceiro era uma espécie de ícone na região do sertão mineiro, tradicional produtora da “branquinha”. Em 1942 comprou a fazenda Havana, localizada na serra dos Bois, a 18 quilômetros do centro de Salinas, e um ano depois tocava sua pequena produção de cachaça. Naquela época, a vizinha Januária, à beira do rio São Francisco, já era famosa pela sua aguardente, produzida desde o final do século 19. Toda aquela região mineira, aliás, tem pequenas mas valiosas características naturais que fazem sua cachaça especial: clima e temperatura ideais, tipo de solo, tudo, enfim, conspira para que a bebida seja simplesmente a melhor do Brasil e do mundo.
De início, a aguardente de Anísio era comercializada a granel, em barris, na própria região. Quatro anos mais tarde, por volta de 1947, ele passou a engarrafar a bebida e a identificá-la com a marca Havana no rótulo. Lançou moda. Foi a primeira vez que um produtor da região identificava a origem de sua cachaça. O fazendeiro tinha lá suas esquisitices. Nunca se deixou fotografar, era avesso a entrevistas, vivia com um par de tênis cortados nas laterais para aliviar a dor de seus calos e não vendia sua cachaça para qualquer aventureiro que batesse à porta de sua casa. Era apaixonado pelo seu caminhão Chevrolet 1946, a ponto de não deixar que ao menos encostassem um dedo nele. Teimoso, não havia quem lhe convencesse de que era preciso aumentar o número de garrafas para atender à crescente demanda. Não abria mão da qualidade.
“Esse tipo de comportamento ia contra a lei da oferta e da procura. Ele fazia exatamente o contrário, desde 1950. Segurou a produção e a deixou envelhecer”, revela o neto Roberto Carlos Santiago. Interessado pela história do avô, Roberto escreveu o livro O mito da cachaça Havana-Anísio Santiago, a ser lançado no início do próximo ano.
Não é à toa que uma garrafa da genuína Anísio Santiago é vendida a R$ 150 no comércio de Salinas. Nas principais capitais brasileiras, não sai por menos de R$ 250. Já as lendárias garrafas com rótulo Havana são disputadas por não menos de mil reais. Uma delas está numa barraca do Mercado Municipal de São Paulo, à espera de algum abastado apreciador de boa bebida disposto a desembolsar inacreditáveis R$ 15 mil. Há quem diga que um freguês chegou a oferecer R$ 7 mil ao proprietário da loja, proposta recusada sem hesitação.
Hoje a produção da cachaça Anísio Santiago não passa dos 12 mil litros anuais e é elaborada como há mais de meio século.
NA FAZENDA HAVANA, assim como nas outras destilarias da região, a cana – de uma espécie conhecida como java – é cultivada sem nenhum tipo de agrotóxico. O solo impregnado de calcário do Vale do Jequitinhonha garante grande teor de açúcar à cana. Sua baixa acidez resulta no sabor suave da bebida. E as temperaturas e a grande luminosidade favorecem o crescimento de fungos só encontrados ali. Eles compõem o mosto para fermentar a garapa, junto com palha de arroz e farelo de milho torrado. A fermentação é feita em dornas de madeira carpidas na região.
A fase seguinte é o aquecimento e a destilação em alambiques de puro cobre. A cachaça começa a esvair-se aos pingos, mas os primeiros litros serão descartados. É a chamada “cabeça” da bebida, muito forte e impura. Também é jogada fora a última parte da extração, o “rabo”, aguado e sem valor. Somente o “coração” da cachaça, os mais nobres litros de toda a produção, é aproveitado.
A Anísio Santiago é envelhecida durante oito anos em barris de madeira bálsamo, antes de ir para o engarrafamento. Outras cachaças da região descansam, em média, dois anos em tonéis de bálsamo, ipê ou umburana. Nessa etapa, alguns segredos são mantidos a sete chaves pelos cachaceiros artesanais. “Cada produtor descobre a seu modo, pelo empirismo, como conseguir melhor qualidade para seu produto”, diz Roberto Santiago.
Certo mesmo é que a tão propagada paciência não foi abandonada e ainda faz a diferença. Quando despejada no copo, a cachaça artesanal de Salinas forma uma espécie de colar de pequenas bolhas de ar nas bordas. O líquido é denso, quase oleoso. O aroma, suave e agradável. O sabor, único.
As outras pequenas destilarias artesanais de Salinas também mantêm produções controladas. “A pureza e a qualidade das nossas cachaças é ponto de honra”, garante João Moraes Pena, presidente da Associação dos Produtores Artesanais de Cachaça de Salinas (Apacs). Na esteira do sucesso da Havana, houve um aumento significativo de novas marcas de caninha na cidade, entre as décadas de 1970 e 1980. Marcas que também se tornaram sinônimo de qualidade, como Sabiá, Teixeirinha, Indaiazinha, Salineira. Atualmente a associação reúne 36 das 41 destilarias artesanais da cidade. Segunda principal economia de Salinas – só perde para a produção de telhas e tijolos –, a fabricação artesanal da aguardente emprega perto de 1.500 pessoas.
Não é só. Uma nova geração de cachaceiros está por vir. Em julho do ano que vem, a Escola Agrotécnica Federal de Salinas abrirá matrículas para o vestibular do primeiro curso para a produção de cachaça do Brasil e, é claro, do mundo. Reconhecido pelo Ministério da Educação, o curso terá duração de três anos e nada menos que 31 disciplinas. Ao final, um novo profissional estará disponível no mercado: o tecnólogo em cachaça.
Na contramão desse ritmo, a paciência e pouca ambição foram deixadas de lado pelos cachaceiros artesanais de Januária – distante cerca de 380 quilômetros –, o que levou à decadência seu principal produto, em meados da década de 60. “Com a ganância, muitos abriram mão da tradição e passaram a comprar bebida industrializada para engarrafar”, diz Antônio Rodrigues, o maior produtor de cachaças de Salinas.
Com a imagem arranhada durante anos, alambiques centenários de Januária fecharam suas portas e a economia ruiu. Agora Januária tenta recuperar seu prestígio. Seis anos atrás foi criada uma associação de cachaceiros artesanais para reviver os áureos tempos, com as marcas Princesa Januária e Januária Sedutora, ambas com produção limitadíssima e controle de qualidade apurado. Quem sabe assim será possível voltar a competir de igual para igual com a vizinha Salinas? Ganham os degustadores da mais brasileira das bebidas.
UMA DOSE DE HISTÓRIA. De como a cachaça saiu da boca dos escravos para a dos embaixadores brasileiros, passando pela garganta de Tiradentes.
Aguardente, birita, caninha, parati, pinga, abrideira, branquinha, danada, espírito, elixir, homeopatia, malvada, remédio, água benta, água que passarinho não bebe, arrebenta-peito, mata-bicho, tira-juízo. A história da bebida cheia de apelidos começou com a introdução da cana-de-açúcar em terras brasileiras pelos colonizadores portugueses. Nos engenhos, os empregados extraíam a bebida da garapa azeda da cana, rejeito decorrente da produção de rapadura. Era oferecida aos escravos para vencer a depressão e suportar a lida diária. Os senhores de engenho também utilizavam a aguardente para amolecer as carnes dos porcos, que chamavam de cachaços, daí a origem do nome mais conhecido. Depois caiu no gosto das camadas menos privilegiadas da sociedade colonial. E desde então, a cachaça ficou estigmatizada como bebida de pobre.
A Coroa portuguesa, incomodada com tamanha popularidade entre os menos abastados, tentou proibir a produção e o comércio da aguardente, que já ganhava certa autonomia econômica. Durante os séculos 17 e 18, pequenos produtores abasteciam os vilarejos habitados por exploradores de ouro das Minas Gerais, grandes consumidores da aguardente que esquentava as noites frias nas montanhas. Acabou por tornar-se moeda de troca, junto com o fumo, no tráfico de escravos.
A partir de então a bebida genuinamente brasileira tornou-se símbolo de resistência nacionalista. Tiradentes, momentos antes de ser enforcado em praça pública, teria feito seu último e provocativo pedido: “Molhem minha goela com cachaça da terra”.
Com a produção cada vez mais refinada e novas técnicas de envelhecimento, a bebida rompeu fronteiras sociais, freqüentando festas palacianas e ganhando apreciadores ilustres, como d. Pedro II. Hoje, a cachaça figura nas embaixadas brasileiras de vários países como nossa bebida oficial, é servida nos melhores restaurantes das principais capitais do país e é cultuada por degustadores das classes mais altas.
COMO CHEGAR A SALINAS:
Montes Claros é o melhor ponto de partida, distante apenas 229 quilômetros, pela BR-251, e com um aeroporto de médio porte capaz de receber vôos regulares a partir de São Paulo e Belo Horizonte. A Total Linhas Aéreas opera com vôos diários desde São Paulo, com escala em Belo Horizonte. A Ocean Air tem vôos, em jatos executivos, de segunda a sexta, desde São Paulo.
ONDE ENCONTRAR AS CACHAÇAS:
Associação dos Produtores Artesanais de Cachaça de Salinas (APACS) – Boa opção para degustar e comprar várias marcas, sem a necessidade de percorrer todos os depósitos da cidade. Pode-se também agendar visitas aos principais alambiques (maio é a melhor época) para apreciar todo o processo de fabricação das cachaças. Os preços variam de R$ 5 a R$ 45, exceto a vedete Anísio Santiago, que chega aos R$ 150. Esqueça as garrafas com o rótulo Havana: elas já são raridade em Salinas.
Av. João Pena Sobrinho, 345. Tel.: (38) 3841-3431. Funciona de segunda a sábado, das 8h às 11h30 e das 13h às 17h.
Seleta e Boazinha Indústria e Comércio – Loja do produtor das marcas Seleta, Boazinha e Saliboa. Além de degustar e comprar algumas garrafas, é possível ouvir os “causos” do simpático proprietário, Antonio Rodrigues, que se gaba de ser o maior produtor da região.
Rua Barão do Rio Branco, 333. Tel.: (38) 3841-1254. Funciona de segunda a sexta, das 8h às 18h, e sábado das 8h às 14h. http://www.cachacaseleta.com.br
Bar Trianon – O mais movimentado da cidade, durante a noite serve doses das melhores cachaças, inclusive a Anísio Santiago.
Rua Padre Salustiano, esq. com rua Barão do Rio Branco, no centro de Salinas.
ONDE FICAR:
Hotel Brasil Palace – Simples, mas limpo e aconchegante.
Rua Vereador Corinto P. de Castro, 70. Tel.: (38) 3841-1064.

Cachaças de Salinas vencem ranking de cachaça da revista Veja

Ranking Veja 1
A conceituada revista VEJA (edição nº. 2.152, de 17/02/2010, págs. 78-80) lançou seu primeiro ranking das melhores cachaças do Brasil em duas categorias: envelhecida e não envelhecida (branca).
Na categoria envelhecida, das cinco marcas eleitas, três são de Minas Gerais, sendo duas de Salinas e uma de Betim: Anísio Santiago-Havana (1º. lugar), Canarinha (2º. lugar) e Vale Verde (3º. lugar). Em seguinda vem Nêga Fulô, do Rio de Janeiro (4º. lugar) e Armazém Vieira, de Santa Catarina (5º. lugar).
Na categoria não envelhecida (branca), as cinco marcas eleitas foram: Volúpia (AL) e Serra Limpa (PB), empatadas em 1º. lugar, Coqueiro (RJ), em 2º. lugar, Santo Grau (RJ), em 3º. lugar e Serra Preta (PB), em 4º. lugar.
O fato é que conceituadas revistas do país estão reverenciando a cachaça, bebida genuinamente brasileira, que até há pouco tempo era discriminada pela elite. Recentemente, a revista Playboy (edição de agosto de 2009) lançou seu ranking de cachaça. Outras revistas, seguindo a moda, estão lançando seus rankings. Bom para o agronegócio da cachaça, sobretudo a artesanal, que carece de divulgação na mídia tendo em vista que é ainda uma atividade econômica em consolidação no mercado brasileiro e no exterior.

Prestígio da cachaça no exterior

O blog Cachaças de Salinas recebeu interessante texto que sai publicado na 9º. edição da revista PIB – Presença Internacional do Brasil, autoria da jornalista Talita Zanetti, sobre o prestígio que a cachaça vem ganhando no exterior, sobretudo nos Estados Unidos. Vale conferir!

CACHAÇA GANHA ESPAÇO NO EXTERIOR
Bebida aumenta seu mercado consumidor mas ainda precisa extirpar o rótulo de “Brazilian Rum”
Por Talita Zanetti
A 9ª edição da revista PIB – Presença Internacional do Brasil, que chega às bancas esta semana, traz uma reportagem especial sobre a formação do mercado consumidor da cachaça nos Estados Unidos. O empresário Steve Luttmann – dono da cachaça líder de vendas no país, a Leblon – se engajou em uma campanha para educar os americanos sobre a cachaça e a caipirinha e fazer com que o governo reconheça a identidade da bebida, trocando o rótulo de “Brazilian Rum”.
O processo burocrático para retirar o nome de rum das cachaças brasileiras está chegando ao fim. O Instituto Brasileiro de Cachaça (Ibrac) contratou um lobista e levou o problema à Embaixada do Brasil com o objetivo de mudar a classificação da bebida. “Não se pode trocar o valor cultural de um produto pelo critério científico, sem falar que o sabor da cachaça em nada lembra o rum”, explica Luttmann.
A Leblon é produzida no Brasil e cerca de 450 mil garrafas são exportadas por ano, espalhando potencialmente 7 milhões de caipirinhas pelo mundo. Nos Estados Unidos, a campanha de Steve se chama “Legalize Cachaça” e, no Brasil, “Salve a caipirinha”, já que muitas vezes utiliza-se vodka no drink. Exemplo de ação da campanha aconteceu quando o Rio de Janeiro foi eleito para ser a sede das Olimpíadas em 2016. A Leblon promoveu “caipi-hours” em bares de dez cidades americanas. A marca lidera o mercado nos Estados Unidos com um terço do total, seguida por Pitu, 51 e Sagatiba.
Sobre a revista PIB
A revista PIB – Presença Internacional do Brasil – é a primeira publicação voltada para todos os aspectos relacionados com a internacionalização da economia brasileira. O objetivo da revista é divulgar temas relacionados com a presença brasileira no exterior, com os benefícios que a internacionalização proporciona para as empresas e investidores brasileiros e com as vantagens geradas por esse processo para o conjunto da economia nacional.
Com direção editorial de Nely Caixeta, a revista tem periodicidade bimestral e circulação dirigida de 25.000 exemplares, sendo 17.000 em português e 8.000 em inglês. Com, no mínimo, 84 páginas e valor de R$ 10, a PIB também é distribuída entre presidentes e diretores das 1.000 maiores empresas brasileiras e autoridades do primeiro escalão do governo federal e dos governos estaduais. Além disso, a revista tem forte presença no exterior, sendo distribuída também em Portugal pelo valor de €3,00. A publicação chega às mãos dos principais dirigentes de organismos ligados às Nações Unidas, à Organização dos Estados Americanos, e também dos participantes dos programas internacionais da APEX Brasil e das missões do Itamaraty.

O lendário Anísio Santiago

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Anísio Santiago (1912-2012)

A família Santiago surgiu no município norte-mineiro de Salinas no ano de 1898, século XIX, através do pioneiro José Santiago (1877-1944), filho de Justino Santiago e Anna Maria de Jesus, nasceu na cidade mineira de Diamantina, no Alto Jequitinhonha.

Ainda jovem, em 1894, José Santiago foi estudar medicina em Salvador. Por razões desconhecidas desistiu do curso no segundo ano. Segundo Arlindo Santiago (1910), filho de José Santiago, o motivo da desistência foi a Guerra de Canudos (1896-1897), ocorrida no interior da Bahia, que mobilizou milhares de soldados do governo da Nova República para combater o temido Antônio Conselheiro. Em dois anos de conflito milhares de pessoas morreram.

Retornando para Minas Gerais, José Santiago foi morar e trabalhar como professor na cidade de Medina, no Vale do Jequitinhonha. Ali conheceu a baiana Virginia Celestina (1882-1965), natural de Urandi, com quem se casou em 1896.

Em 1898, mudou-se com a esposa para Salinas exercendo ainda a profissão de professor como fazia em Medina. Dois anos depois foi lecionar no povoado de Lagoinha, interior do município. O povoado, naquela época, tinha importância estratégica tendo em vista que era parada obrigatória de pessoas e transportadores de mercadorias em mulas entre Salinas e Montes Claros. Em 1903 adquiriu a fazenda Bonfim, próxima ao povoado, onde fixou moradia, tornando-se produtor rural, além de professor. José Santiago tornou-se pessoa muito assediada na região pelo fato de ter conhecimento de medicina, além de ser professor. Em pouco tempo tornou-se uma espécie de líder do povoado de Lagoinha e região.

Da união de José Santiago e Virginia Celestina surgiu prole numerosa, fato muito comum na estrutura familiar do início do século XX. Foram doze filhos: Antônio Santiago (1897-1950), Maria Santiago (1899-1953), Leôncio Santiago (1901-1945), Silvio Santiago (1912-1986), Santinha Santiago (1908-2001), Arlindo Santiago (1910), Anísio Santiago (1912-2002), José Elzito Santiago (1915-1945), Anita Santiago (1913), Osvaldina Santiago (1917) e Osvaldir Santiago (1919-2007). Dos doze filhos, somente o primogênito, Antônio Santiago, nasceu em Medina; os demais em Salinas.

José Santiago veio a falecer em 1944, aos sessenta e sete anos e a sua esposa, Virginia Celestina, em 1965, aos oitenta e três anos. Foram precursores da família Santiago em Salinas, cujo tronco da árvore genealógica tem origem na região de Diamantina.

Da prole numerosa de José Santiago o destino reservou ao sétimo filho trajetória de vida que o tornaria parte da história de Salinas: Anísio Santiago. Nasceu no dia 2 de fevereiro de 1912, na fazenda Bonfim, zona rural de Salinas. Ali cresceu e viveu sua infância e adolescência ao lado dos pais e irmãos.

Aos doze anos de idade, escondido do pai, experimentou beber cachaça pela primeira vez. Não gostou. Desde então jamais bebeu cachaça em toda a sua vida. Entretanto, quis o destino que a cachaça tivesse importância fundamental em sua vida.

O jovem Anísio Santiago aprendeu vários ofícios. Foi carpinteiro, tropeiro, comerciante, motorista e fazendeiro. Como tropeiro transportou mercadorias em mulas entre Salinas e Montes Claros na década de 1930.

De tropeiro tornou-se motorista de um Ford F-8, que adquiriu no final da década de 1930. Foi um dos primeiros motoristas da região de Salinas e foi testemunha ocular da modernidade que aos poucos chegava através das estradas empoeiradas e esburacadas.

Em 1937, aos 25 anos, Anísio Santiago casou-se com Adélia Mendes (1916-2007), então com 21 anos de idade. Deixou o povoado de Lagoinha e fixou residência na cidade de Salinas, onde continuou a exercer as atividades de comerciante e motorista.

Alguns anos depois, em 1942, comprou a fazenda Havana de um parente no sopé da Serra dos Bois distante dezoito quilômetros da sede do município. Para lá mudou com a esposa. Iniciava nova fase na vida do então jovem Anísio Santiago.

Estabelecido definitivamente na fazenda Havana, um ano depois, começou produzir cachaça no pequeno alambique que existia na fazenda do antigo proprietário. Em pouco tempo a produção de cachaça se tornou a principal atividade econômica da propriedade rural. A cachaça produzida era vendida a granel. Em 1946 constituiu empresa e passou a identificar o seu produto através da marca Havana. A marca foi pioneira na região de Salinas. O produtor Anísio Santiago foi o primeiro produtor de cachaça a identificar a bebida por meio de uma marca, dando origem e personalidade ao produto. Até então os produtores do município e região produziam e vendiam cachaça a granel a comerciantes e tropeiros da região.

Em 1947, adquiriu o caminhão Chevrolet Leadmaster, 1947, no Rio de Janeiro, importado dos Estados Unidos. Ele próprio foi à capital federal buscar o caminhão. Com ele passou a comercializar a sua cachaça em Salinas, região norte-mineira e sul da Bahia. Como produzia cachaça de qualidade logo foi adquirindo fama junto ao consumidor.

Anísio Santiago teve dois fatores decisivos na divulgação do seu produto: a marca Havana (pioneira na região de Salinas) e o caminhão que transportava a bebida diretamente ao consumidor. Com isso saiu na frente dos produtores que comercializam o seu produto a granel. Na década de 1960, vários produtores de Salinas começaram a identificar o seu produto por meio de marcas, de olho no sucesso da cachaça de Anísio Santiago. Viam nele uma referência no processo de produção de cachaça de qualidade, uma vez que a marca Havana tinha grande aceitação na região e a sua fama estava ultrapassando fronteiras. Em função disso logo surgiram várias marcas como a Piragibana, do produtor Ney Corrêa; a Indaiazinha, do produtor Waldete Romualdo; a Seleta, do produtor Miguelzinho de Almeida; a Teixeirinha, do produtor Felismino Teixeira; a Asa Branca, do produtor Juventino Queiroz; a Sabiá, do produtor Juca Marcolino; a Estrela do Norte, do produtor Purdencio Francisco dos Santos; e a Pulusinha, do produtor Narciso Dias Corrêia.

Outro fator determinante para o surgimento de novas marcas em Salinas foi a decadência da cadeia produtiva de cachaça na região de Januária, na década de 1960, século XX, em função da ação gananciosa dos produtores, que não souberam manter a qualidade e tradição da cachaça ali produzida. Até então as marcas de Januária gozavam de alto conceito junto ao consumidor, na região norte-mineira e em todo o Brasil.

Com isso, Salinas foi aos poucos preenchendo lacuna no mercado de cachaça deixado pelos produtores de Januária. Na década de 1970, Salinas foi se impondo regionalmente como grande produtora de cachaça. O clima, solo e a variedade de cana Java, que se adaptou muito bem ao clima da região, foram fatores decisivos em todo o processo. Outro aspecto interessante no crescimento do setor produtivo de cachaça é a marca Havana, na época já reconhecida como marca tradicional, que se tornou um ícone dos produtores da região.

Na década de 1990, a cachaça de Salinas passou por novo e vigoroso processo de expansão da produção, culminando no aumento significativo de marcas em função da implantação do Pró-Cachaça, pelo governo mineiro, em 1992, visando estimular o aprimoramento da cachaça artesanal mineira. E deu certo. O Pró-Cachaça, em pouco tempo, revolucionou toda a estrutura da cadeia produtiva da cachaça artesanal produzida em todo o território mineiro, e em Salinas não foi diferente.

Atualmente, existem mais de 50 marcas de cachaça produzidas no município. A produção já ultrapassa cinco milhões de litros por safra (anual). Tornou-se na importante região produtora de cachaça artesanal de Minas Gerais e do Brasil. Em 2006, foi responsável por 45,87% de toda a arrecadação de ICMS, imposto de circulação de mercadorias e serviços de competência estadual, em todo o território mineiro. O processo de diversificação da economia brasileira ao longo nas últimas décadas vem forjando e incrementando atividades econômicas de produtos típicos da cultura do Brasil no mercado com forte impacto nas economias locais. Salinas encontrou no agronegócio da cachaça uma atividade econômica que vem mudando o perfil de toda a sua economia, contribuindo para o seu desenvolvimento sócio-econômico.

Reconhecendo a cachaça como importante atividade econômica e cultural, o prefeito de Salinas, José Antônio Prates, por meio do Decreto Municipal nº. 3.728/2006, reconheceu a marca Havana, ícone das marcas produzidas no município, como Patrimônio Cultural Imaterial de Salinas, em face de sua história, qualidade e notoriedade no mercado brasileiro e no exterior. Por meio do decreto, fato inédito no Brasil, o poder executivo municipal reconheceu o feito espetacular do produtor Anísio Santiago, empresário rural que conseguiu dar credibilidade e alto conceito de qualidade em todo o território nacional e no exterior da mais importante e genuína bebida brasileira: a cachaça.

Anísio Santiago foi empresário local que conquistou o mundo não por altas cifras em faturamento e sim pela excelência de qualidade de um produto que foi e continua sendo concebido por método de produção ainda não decifrado pelos produtores de Salinas e de outras regiões de Minas Gerais e do Brasil. O segredo é guardado pelos filhos que vem mantendo o processo de produção pelo mesmo método de origem. Anísio Santiago ultrapassou a barreira de empresário rural norte-mineiro que deu certo. Mais que isso, se tornou no símbolo de bebida que faz parte da história brasileira desde o século XVI, na década de 1530, quando o português Martin Afonso de Souza construiu engenhos na Capitania de São Vicente para a produção de açúcar e cachaça.

A Fazenda Havana, onde é produzida a bebida, se tornou em espécie de reduto sagrado do universo da cachaça brasileira ao longo das últimas décadas. O jornalista paulista Sidnei Maschio afirma que “Em vários lugares ao redor do mundo, as visitas exigem mesmo um ritual específico, coerente com a sacralidade que eles encerram. A Fazenda Havana está nessa lista. A propriedade poderia ser comparada a um templo, pelo papel na recuperação e na divulgação das melhores qualidades da bebida genuinamente brasileira. O universo da cachaça tem duas histórias distintas, uma antes e outra depois da Havana”.

Anísio Santiago foi homem que fez história no seu tempo com a sua lendária Havana. O depoimento de degustadores e especialistas ratificam a aura criada em torno do mítico produtor. Vejamos alguns depoimentos:

“Historicamente, Anísio Santiago trouxe para Salinas, fama e prestígio através da Havana. Soube valorizar a qualidade e agregar valor ao produto em mais de seis décadas de produção.” (JOSÉ ANTÔNIO PRATES, prefeito de Salinas).

“A fama da Havana atraiu para Salinas a atenção do Brasil e do mundo. A capital da cachaça tem o dever de reconhecer o seu maior benfeitor.” (ISRAEL PINHEIRO, político, filho do ex-governador Israel Pinheiro e produtor da Cachaça Cubana em Salinas).

“Anísio Santiago escreveu uma grande história e se tornou uma lenda. Mas há muito mais por trás da saga da produção da cachaça Havana – Anísio Santiago. Para mim uma garrafa de Havana guarda muito mais que uma bebida rara, ela preserva história, memórias e lembranças. Na Fazenda Havana não é produzida apenas uma cachaça. É destilado um sonho, a realização e a perpetuação de um sonho muito antigo.” (JANE SALDANHA, jornalista e repórter do documentário Cachaça de Minas – Programa Planeta Minas, Rede Minas).

“Anísio Santiago é uma lenda para nós. Do reconhecimento efetivo da Havana soube manter espírito investigativo e inovador na produção de cachaça, não se deixando deslumbrar pelo lucro que poderia ter.” (JOSÉ BONIFÁCIO DOS SANTOS, presidente da Confraria Clube da Cachaça de Brasília – DF).

“Se cachaça fosse carro, a Havana seria uma Ferrari.” (MILTON LIMA, fundador do site cachaças.com).

“Pesquisar sobre a cachaça de Salinas, nos últimos cinqüenta anos, forçosamente incluirá a pesquisa da marca Havana. Discorrer sobre essa marca, cuja trajetória é assentada na simplicidade e no capricho quase obsessivo de seu proprietário em manter, ao longo de várias décadas, um elevado padrão de qualidade, invariavelmente requer que se teçam comentários sobre quem a idealizou, cuidou e a construiu.” (ELIAS RODRIGUES DE OLIVEIRA, mestre em Administração Rural).

“Ainda não acostumei com a ausência de tio Anísio Santiago. Tive o privilégio de conviver com ele na Fazenda Havana por muitos anos quando jovem. Tudo que sei sobre cachaça aprendi com ele. Com a Havana, ele projetou a cachaça de Salinas no Brasil.” (NOÉ SANTIAGO, sobrinho de Anísio Santiago e produtor da Cachaça Canarinha em Salinas).

“Anísio Santiago ia contra as teorias de marketing. Imagine um político ou um vendedor de bugigangas rejeitar aparecer na Rede Globo? Ele não ia atrás de ninguém, as pessoas o procuravam como em romaria, tinha uma personalidade imantada. Inverteu a lógica vulgar e fez um marketing sólido, mais sólido que a nossa moeda. Apesar de ser proibido cunhar dinheiro, que é monopólio do estado, cunhou a Havana, pagando com ela seus empregados e suas compras. Anísio Santiago conseguiu ser uma lenda em vida, mesmo em cidade do interior onde os comentários são quase sempre negativos. ‘Aquele é o Anísio da Havana’, diziam orgulhosos os da terra aos amigos de fora, quando Anísio passava. A marca que criou cresceu e virou fetiche, invertendo a lógica criador criatura, pois a Havana é que era dele, sua subordinada.” (APOLO HERINGER LISBOA, escritor, médico e professor de medicina da UFMG).

“Os filhos e netos de Anísio Santiago estão conscientes da responsabilidade de manter a tradição e o padrão de qualidade adquirido em décadas de produção.” (OSVALDO MENDES SANTIAGO, filho de Anísio Santiago e atual sucessor na produção da Cachaça Havana-Anísio Santiago).

Anísio Santiago faleceu em 22 de dezembro de 2002, aos 91 anos. Em vida foi uma lenda. Transformou-se no maior ícone da história da cachaça brasileira. É impossível falar ou escrever sobre cachaça sem tecer comentário ao seu nome e ao seu feito. Mesmo após a sua morte em 2002, ainda desperta curiosidade em muitas pessoas. Ainda muito se fala e se escreve a seu respeito e do legado que deixou. Deixou grande lição de vida e demonstrou ser possível crescer e construir uma vida respeitável e obter a admiração de todos. Sempre permaneceu fiel aos seus ideais e princípios que acreditou serem verdadeiros.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

SANTIAGO, Roberto Carlos Morais. O Mito da Cachaça Havana-Anísio Santiago. Belo Horizonte: Cuatiara, 2006, 292 p.

Falece produtor da cachaça Canarinha

Noé Santiago Soares, produtor da famosa cachaça Canarinha

Faleceu hoje em Nova Matrona, distrito de Salinas, Noé Santiago Soares, aos 69 anos, o produtor da tradicional cachaça Canarinha. Noé Santiago deixou legado de produzir cachaça de alta qualidade. Sempre dizia que “tudo que aprendi sobre cachaça foi com tio Anísio Santiago”, produtor da lendária cachaça Havana-Anísio Santiago. “A família de Noé Santiago vai dar prosseguimento na produção da Canarinha com o mesmo método original de produção“, afirma Eilton Santiago, filho e sucessor de Noé Santiago, para satisfação dos admiradores e degustadores da famosa marca.